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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Homem-Porco? Será Verdade que Cientistas Norte-Americanos Estão Tentando Criar Seres Híbridos ?

Homem-Porco? Será Verdade que Cientistas Norte-Americanos Estão Tentando Criar Seres Híbridos "Metade Homem e Metade Porco"?



Em meados do ano passado escrevi uma postagem comentando sobre eventuais seres humanos "sintéticos", visto que alguns cientistas tinham a ambição de sintetizar o genoma humano. Vocês lembram dessa história? Tudo teria começado a partir de uma reunião "secreta" realizada no dia 10 de maio do ano passado, quando um grupo de 150 convidados, entre eles cientistas, empresários e juristas participaram de um encontro a portas fechadas na Escola de Medicina da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Eles se reuniram para discutir se era possível, e como construir "a partir do zero" todo um genoma humano - o material genético hereditário, que na natureza é transferido dos pais para os filhos. Entretanto, muito provavelmente ninguém saberia desse encontro se não fosse pela "denúncia" de Drew Endy, professor associado de Bioengenharia da Universidade de Stanford, e de Laurie Zoloth, professora de Ética Médica e Ciências Humanas da Universidade Northwestern, ambas nos Estados Unidos, que tinham sido convidados, não gostaram nada dessa história e resolveram divulgá-la através de suas redes sociais. Ambos não achavam correto que algo dessa dimensão ocorresse a portas fechadas. Além disso, eles questionaram diversos pontos, tais como: Os cientistas poderiam sintetizar um genoma humano modificado, que fosse resistente a todos os vírus naturais? Provavelmente poderiam fazer isso para fins puramente benéficos, mas e se outros cientistas resolvessem sintetizar os vírus modificados, que superassem essa resistência? Será que isso poderia desencadear uma corrida armamentista de engenharia genômica? Seria certo, por exemplo, sequenciar e sintetizar o genoma de Einstein? Se sim, uma vez que muitos genomas de Einstein fossem produzidos e inseridos em células, quem seria o responsável por fazer isso?


Alguns cientistas, no entanto, acreditavam que seres humanos totalmente sintéticos não eram uma realidade ao nosso alcance atualmente, mas seres humanos geneticamente modificados poderiam ser. Outros diziam que a perspectiva estava estimulando intrigas e preocupações na comunidade científica, porque poderia ser possível, através de clonagem, usar um genoma sintético para criar seres humanos sem a necessidade de pais biológicos. O Dr. George Church, professor de Genética na Escola de Medicina de Harvard, principal responsável pela organização do encontro, tentou se defender diversas vezes ao dizer que ninguém estava falando sobre a criação de seres humanos a partir do zero. Uma aplicação da síntese do genoma a um custo mais baixo, seria a de criar células que fossem resistentes a vírus. Não seriam células utilizadas diretamente em terapias humanas, mas sim em linhagens celulares cultivadas pela indústria farmacêutica para o desenvolvimento de medicamentos, visto que tais processos são atualmente vulneráveis à contaminação viral. Além disso, o processo poderir permitir a cultura de órgãos humanos para transplante, a resistência a vírus e ao câncer em linhagens celulares, a aceleração na produção de vacinas mais eficientes a custo-benefício melhor, entre outros "benefícios". Vale muito a pena você conferir essa postagem! (leia maisSeres Humanos "Sintéticos"? Cientistas Propõem Ambicioso Projeto para Criar um "Genoma Humano Sintético").

Recentemente, no entanto, me deparei com inúmeras notícias de sites nacionais, internacionais e até mesmo canais do YouTube abordando um tema, cujas principais manchetes aqui no Brasil, por exemplo, diziam: "Cientistas misturam homem e porco e criam animal 'híbrido'", "Cientistas criam embrião híbrido: parte porco, parte humano", "Cientistas criam animal híbrido de homem e porco", entre outros. Sites internacionais chegaram a utilizar amplamente a expressão "human-pig" (literalmente traduzido como "humano-porco"), enquanto alguns sites nacionais usaram a expressão "homem-porco, a exemplo do site do jornal "O Globo". Aliás, diversos canais do YouTube estamparam em suas "thumbnails" imagens de pessoas com cabeças de porcos ou então frases como "metade homem e metade porco". Uma notícia publicada no G1, por exemplo dizia que cientistas tinham criado pela primeira vez embriões que continham uma combinação de células-tronco de duas espécies grandes e muito diferentes - humanos e porcos - e que esse era um passo importante em direção ao desenvolvimento de órgãos para transplante. Sinceramente, achei estranho todo esse frenesi em torno desse assunto, cuja discussão é bem antiga. Provavelmente, isso só ganhou certa "popularidade", devido as mais diversas expressões que a mídia e muitos canais utilizaram. Então, resolvi trazer essa história para vocês, para tentar mostrar a realidade por trás desse tema. Vamos saber mais sobre esse assunto?


Voltando um Pouco no Tempo: A Relação Entre o Ser Humano e o Porco, Quando o Assunto Envolve o Transplante de Órgãos




Em um curto texto publicado em abril de 2011, no site da revista Mundo Estranho, da editora Abril, era questionado a razão pela qual órgãos de porcos e não de macacos eram testados para transplantes em seres humanos. Segundo, o cirurgião hepático Sérgio Mies, da Universidade de São Paulo e do Hospital Albert Einstein, "anatomicamente, órgãos como o fígado, o coração e o rim do porco são muito parecidos com os nossos".  Outra vantagem é que os porcos chegam à fase adulta muito mais rápido que os macacos. Com cerca de apenas 1 ano, um porco já tem entre 60 e 80 quilos e pode ser doador. Por outro lado os gorilas, que têm órgãos com um tamanho próximo de um ser humano, só atingem a maturidade aos 7 anos. 

Em outubro daquele mesmo ano, em uma outra curta notícia publicada pelo britânico "Daily Telegraph" era mencionado, que porcos geneticamente modificados um dia poderiam oferecer órgãos para transplantes. O texto dizia, que a persistente escassez de órgãos humanos estava levando especialistas a procurarem por métodos envolvendo a utilização de suínos criados com genes humanos, de modo que as partes do corpo humano pudessem ser cultivadas nesses animais, e posteriormente extraídas para uso em pacientes sem que o sistema imunológico do mesmo as rejeitassem.


A persistente escassez de órgãos humanos estava levando especialistas a procurarem por métodos envolvendo a utilização de suínos criados com genes humanos, de modo que as partes do corpo humano pudessem ser cultivadas nesses animais, e posteriormente extraídas para uso em pacientes sem que o sistema imunológico do mesmo as rejeitassem

Na época, uma equipe de pesquisadores da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, havia publicado em um periódico cientifíco britânico chamado "The Lancet", que novos suínos geneticamente modificados iriam melhorar o resultado do xenotransplante celular e de córneas (o principal foco do material que foi publicado). Eles acreditavam que os ensaios clínicos seriam justificáveis em cerca de dois ou três anos.


Nesse ponto vale mencionar, que o "xenotransplante" nada mais é do que o processo de extrair órgãos, tecidos e células entre diferentes espécies de animais. Porém, o "xenotransplante" é apenas uma espécie de método alternativo, visto que a preferência, é claro, é o transplante de órgãos entre seres humanos.


Tabela mostrando o comparativo entre as córneas humanas e de porcos

De acordo com estudos em animais, o transplante de órgãos maiores, como pulmões, corações e rins, provavelmente demoraria mais tempo, devido a problemas com a formação de coágulos, bem como excesso de sangramento. O problema era que o tempo de sobrevivência de órgãos de porcos em primatas não humanos variava de poucos dias em relação aos pulmões, e até seis ou oito meses para os corações.


Já em fevereiro de 2013, em uma matéria publicada pelo Instituto Ciência Hoje, o médico Flávio Henrique Ferreira Galvão, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), chegou a mencionar que até o final da década de 1970, dezenas de transplantes de rins, fígados e corações foram realizados usando macacos, porcos, cabras e coelhos. Essas experiências consideradas pioneiras verificaram um alto índice de fracasso desses procedimentos, devido principalmente à forte rejeição (chamada hiperaguda), que destrói o órgão em poucas horas. Esse fato, aliado ao sucesso do uso de doadores humanos falecidos e vivos, provocou o abandono do xenotransplante clínico.

Entretanto, nos últimos anos, os avanços nos estudos nessa área tinham permitido, que se vislumbrasse o retorno desse método como potencial solução para a carência de órgãos. Acho que nem preciso dizer quantas pessoas infelizmente acabam morrendo na fila de transplante, enquanto esperam por um doador.


Com apenas cerca de 1 ano, um porco já tem entre 60 e 80 quilos e pode ser um doador. Por outro lado os gorilas,
que têm órgãos com um tamanho próximo de um ser humano, só atingem a maturidade aos 7 anos de idade.

Naquela época, ou seja, quatro anos atrás, já era comum se utilizar tecidos suínos em próteses cardíacas e na composição de fígados bioartificiais. Porém, o uso de células e órgãos de porcos e de outros animais ainda tinham uma grande limitação. No intuito de melhorar esse quadro, pesquisadores vinham lançando mão de técnicas sofisticadas de terapia genética. Havia grupos testando a criação de porcos com órgãos mais compatíveis com o organismo humano, o que diminuiria a chance de rejeição em casos de xenotransplante. Nesses experimentos, Galvão explicou que partes genéticas desses animais, justamente as que provocavam a rejeição hiperaguda, eram substituídas por genes humanos.  


Com o avanço da genética e a possibilidade de se reprogramar células maduras em células-tronco embrionárias - pesquisa que rendeu o Nobel de Medicina de 2012 para John Gurdon e Shinya Yamanaka -, o leque de possibilidades aumentou consideravelmente.


Com o avanço da genética e a possibilidade de se reprogramar células maduras em células-tronco embrionárias - pesquisa que rendeu o Nobel de Medicina de 2012 para John Gurdon (à esquerda) e Shinya Yamanaka (à direita) -, o leque de possibilidades aumentou consideravelmente



Os babuínos da primeira parte da pesquisa mantiveram o coração suíno por 298 dias, antes de rejeitá-lo. No estudo seguinte, todos os primatas envolvidos no estudo sobreviveram por 500 dias sem rejeitar o novo órgão. No teste mais recente, os órgãos foram bem recebidos por cerca de 945 dias.

A pesquisa realizada por cientistas dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos, no entanto, ainda era vista com certa desconfiança por alguns setores da biomedicina. Os opositores à técnica afirmavam que, o coquetel de fármacos produzidos especialmente para evitar a rejeição ao novo órgão, poderiam funcionar em símios, mas isso não era garantia de eficiência em seres humanos. Outros sustentavam que esse tipo de transplante poderia resultar na infecção de seres humanos por vírus que contaminassem animais.


Em abril do ano passado, foi amplamente anunciado que um babuíno havia sobrevivido por quase 3 anos, com dois corações em pleno funcionamento em seu abdômen: seu próprio órgão e um coração de porco geneticamente modificado

Talvez o ponto mais emblemático em relação a esse tema, tenha sido uma informação divulgada no início de junho do ano passado, no qual cientistas estavam criando órgãos humanos em porcos para transplante. Em experimentos na Universidade da Califórnia (UC), nos quais a rede britânica BBC teve acesso, os pesquisadores injetaram células-tronco humanas em embriões de suínos para produzir embriões híbridos apelidados de "quimeras". O termo era uma referência à mitologia grega, em que as quimeras eram monstros híbridos com partes de diversos animais (parte leão, cabra ou serpente, por exemplo).


Entretanto, os pesquisadores esperavam que as suas quimeras "humano-suínas" tivessem a aparência e o comportamento normal de porcos, exceto pelo fato de que teriam um órgão composto de células humanas.


Células-tronco humanas sendo injetadas em embriões de porco
(as células podem ser vistas no tubo à direita)

No experimento da Universidade da Califórnia, primeiramente os cientistas removeram o gene de um embrião recém-fertilizado de porco, que levaria ao desenvolvimento do pâncreas no feto. Isso era feito aplicando uma técnica de edição genética cjamada "CRISPR" (não iremos entrar em detalhes para não confundirmos a cabeça de vocês). Assim sendo, células-tronco humanas, capazes de se desenvolver como qualquer tecido no corpo, eram injetadas no embrião suíno. Os pesquisadores esperavam que as células-tronco humanas ocupassem uma espécie de "nicho genético" no embrião de porco, e gerassem um pâncreas com tecido humano no feto. Os fetos se desenvolveram em fêmeas de porco durante 28 dias, sendo que o período completo de gestação era de cerca de 114 dias. Após esse período de quatro semanas, no entanto, as gravidezes eram interrompidas e o tecido era removido para análise.


"Esperamos que o embrião de porco se desenvolva normalmente, mas o pâncreas será feito quase exclusivamente de células humanas, e será compatível com o de pacientes esperando transplantes", disse à BBC, o coordenador da pesquisa, um biólogo reprodutivo chamado Pablo Juan Ross. Como podem notar, essa pesquisa era bem polêmica.


"Esperamos que o embrião de porco se desenvolva normalmente, mas o pâncreas será feito quase exclusivamente de células humanas, e será compatível com o de pacientes esperando transplantes", disse à BBC, o coordenador da pesquisa, um biólogo reprodutivo chamado Pablo Juan Ross (na foto). Como podem notar, essa pesquisa era bem polêmica.



Em comunicado sobre a decisão, os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos destacaram que tratava de uma promissora área da ciência, que estava em rápido progresso, mas que merecia considerações sobre a ética e bem-estar dos animais. Além da questão sobre o possível uso de animais para fabricar órgãos, o maior temor é com a humanização, ou seja, que o animal resultante do experimento tenha características humanas, desde um simples pelo até um maior poder cognitivo, ou seja, a principal preocupação era que as células humanas migrassem para o cérebro dos porcos ao longo do processo, tornado-os, de certa forma, "mais humanos". No entanto, em agosto de 2016, os Institutos Nacionais de Saúde divulgaram que estavam revendo essa moratória, pedindo a opinião da população e dos demais cientistas, e que poderiam financiar esse tipo de estudo, ainda que de forma parcial, em um futuro próximo. De qualquer forma, até a presente data essa moratória segue valendo.



Criar por porcos com órgãos humanos, era o objetivo de um grupo de cientistas do Instituto Salk para Estudos Biológicos, sediado na Califórnia, nos Estados Unidos, e que atuava num nascente e promissor campo, que reunia modernas técnicas de edição genética e células-tronco

Contudo, segundo Jun Wu, um dos pesquisadores desse instituto, a contribuição de células humanas era muito limitada, menos de 0,01% em porcos e ratos, provavelmente pela longa distância evolucionária. Por isso, a situação ideal era guiar as células humanas para um órgão específico, como eles estavam tentando fazer, enquanto limitavam essa contribuição para outros tecidos, como o cérebro e a linhagem germinativa.


Além do Instituto Salk, pesquisas nessa linha estavam sendo realizadas em Stanford e na Universidade de Minnesota. Para vocês terem uma ideia, as estimativas apontavan que ao menos 20 gestações de quimeras tinham sido realizadas no ano de 2015, mas os resultados ainda não tinham sido publicados.


Contudo, segundo Jun Wu, um dos pesquisadores desse instituto, a contribuição de células humanas era muito limitada, menos de 0,01% em porcos e ratos, provavelmente pela longa distância evolucionária.

Enfim, conforme vocês puderam perceber, as pesquisas nesse sentido já vinham sendo realizadas muito antes de 2011, e continuam sendo realizadas até hoje. Isso nunca foi nenhuma novidade e, evidentemente, conforme o tempo avança, são esperados resultados ainda mais promissores nesse campo, com o intuito de haver uma diminuição no tempo que as pessoas aguardam na fila por um transplante.


Entre humanos existe uma série de etapas a serem seguidas, inúmeros exames, protocolos e até mesmo o consentimento da família, caso a outra pessoa, clinicamente morta, não tenha expressado em vida seu desejo de doar seus órgãos, principalmente os vitais como o coração e os pulmões, por exemplo. Por outro lado, entidades que lutam pelos direitos dos animais constantemente protestam contra o xenotransplante, visto que para eles os animais não merecem ser explorados e mortos para esta finalidade, pelos mesmos motivos que não se admite na comunidade científica, que se mate pessoas para extrair seus órgãos para transplante.

Esse é um debate extremamente polêmico nos mais diversos sentidos, e que recentemente ganhou destaque na mídia, principalmente pela forma como foi divulgado, e pela imagem de um embrião que estampou diversas páginas na internet. É justamente sobre essa notícia que comentaremos a seguir.


Os Cientistas do Instituto Salk para Estudos Biológicos Estão Tentando Criar Seres Híbridos "Metade Homem e Metade Porco"?




Acredito que após a nossa pequena e bem resumida viagem no tempo, em relação a utilização de suínos com o objetivo de fornecer órgãos para transplante em humanos, que você saiba a resposta para essa pergunta. No entanto, vamos tentar entender a realidade por trás do que foi recentemente divulgado, visto que não envolve apenas um estudo nesse sentido, mas um outro envolvendo camundongos e ratos também.

De acordo com um comunicado de imprensa, do periódico científico Cell, que foi publicado no site EurekAlert (um sistema de notícias da Associação Americana para o Avanço da Ciência), os esforços dos pesquisadores do Instituto Salk para Estudos Biológicos para cultivar os primeiros embriões contendo células de seres humanos e suínos revelaram-se mais desafiadores do que o previsto, sendo que isso havia sido publicado nesse mesmo periódico na última quinta-feira (26). Confira também um vídeo divulgado pelo Instituto Salk sobre esse assunto, em seu próprio canal no YouTube, nesse mesmo dia (em inglês, mas não se preocupem, porque iremos comentar sobre as declarações desses cientistas para outros sites):


Segundo esse comunicado, as quimeras "humano-animal" poderiam oferecer uma maior compreensão sobre os primeiros estágios do desenvolvimento humano e das doenças, além de fornecer uma plataforma realista para o testes de medicamentos. Essas quimeras também poderiam fornecer, algum dia, um meio de crescimento de células humanas, tecidos e órgãos para medicina regenerativa. Por enquanto, no entanto, eles estavam ajudando os cientistas a entender como as células-tronco humanas crescem e se especializam.

"O objetivo final é desenvolver tecido funcional e transplantável ou órgãos, mas estamos longe dissoEsse é um primeiro passo importante", disse o pesquisador e principal autor do estudo, Juan Carlos Izpisua Belmonte, professor do Laboratório de Expressão Genética do Instituto Salk de Estudos Biológicos.


Juan Carlos Izpisua Belmonte (em segundo plano), professor do Laboratório de Expressão Genética do Instituto Salk de Estudos Biológicos, e o cientista Juan Wu, que faz parte da equipe de pesquisa desse mesmo instituto

Primeiramente, Juan Carlos Izpisua Belmonte e o cientista Jun Wu criaram uma quimera entre um rato e um camundongo ao introduzir células de rato em embriões de camundongos, e deixando-os amadurecer. Vale lembrar que outros pesquisadores já tinham criado uma quimera entre um rato e um camundongo em 2010, no qual consistia em um camundongo com tecido pancreático formado a partir de células de rato.


A diferença é que agora, Izpisua Belmonte e Juan Wu realizaram esse experimento ao editar o genoma para direcionar as células de rato a crescerem em nichos específicos no camundongo. Para conseguir isso, eles usaram as ferramentas de edição do genoma (CRISPR) para simplesmente deletar genes essenciais e críticos em células de óvulos fertilizados de camundongo. Em uma determinada célula, por exemplo, eles eliminaram um único gene crítico para o desenvolvimento de um órgão, como o coração, o pâncreas ou os olhos. Em seguida, eles introduziram células-tronco de ratos, nesses embriões, para ver se eles iriam preencher o nicho que ficou em aberto. Entenderam o funcionamento? 


Primeiramente, Juan Carlos Izpisua Belmonte e o cientista Jun Wu criaram uma quimera entre um rato e um camundongo ao introduzir células de rato em embriões de camundongos, e deixando-os amadurecer. Vale lembrar que outros pesquisadores já tinham criado uma quimera entre um rato e um camundongo em 2010. A diferença é que agora, Izpisua Belmonte e Juan Wu realizaram esse experimento ao editar o genoma para direcionar as células de rato a crescerem em nichos específicos no camundongo

"As células de rato possuem uma cópia funcional do gene ausente do camundongo, de modo que elas podem complementar as células de camundongo ao ocupar nichos vazios do desenvolvimento de órgãos. Uma vez que o organismo amadureceu, as células do rato preencheram os espaços das células de camundongo, formando tecidos funcionais do coração, olhos ou pâncreas", disse Juan Wu. As células de rato também cresceram para formar uma vesícula biliar no camundongo, apesar dos ratos terem deixado de desenvolver esse órgão durante cerca de 18 milhões de anos atrás, desde que os ratos e os camundongos se separaram evolutivamente.


As células derivadas de células estaminais pluripotentes de ratos (PSCs) foram enriquecidas no coração
em desenvolvimento de um embrião de camundongo geneticamente modificado

"Isso sugere que a razão pela qual um rato não gera uma vesícula biliar não é porque não pode, mas porque o potencial foi escondido por um 'programa de desenvolvimento específico de rato'. O microambiente evoluiu através de milhões de anos para escolher um 'programa' que define um rato", continuou Wu.


Essa foto mostra uma quimera de 1 ano gerada pela injeção de células estaminais pluripotentes de ratos.
A cor marrom da pelagem indica a contribuição das células de rato.

O passo seguinte da equipe foi introduzir as células humanas em um organismo. Eles decidiram utilizar embriões de vaca e porcos como hospedeiros, porque o tamanho dos órgãos desses animais se assemelhava mais aos seres humanos do que os camundongos. A equipe encontrou muitos desafios logísticos, mas o verdadeiro desafio científico foi determinar, que tipo de célula-tronco humana poderia sobreviver em uma vaca ou embrião de porco.


As experiências com embriões de vaca se mostraram mais difíceis e mais caras do que com os porcos, de modo que a equipe direcionou seus esforços em relação aos próprios porcos. O esforço necessário para completar os estudos de 1.500 embriões de suínos, envolveram contribuições de mais de 40 pessoas, incluindo criadores de suínos, durante um período de quatro anos.

"Nós subestimamos o esforço envolvido. Foi necessária muita dedicação", disse Izpisua Belmonte.

Não somente porque os porcos e os seres humanos são cerca de cinco vezes mais distantes evolutivamente do que os ratos e os camundongos, mas porque os suínos também têm um período de gestação que é cerca de um terço menor do que os seres humanos. Por isso os pesquisadores precisavam introduzir células humanas em uma perfeita sincronia para coincidir com o estágio de desenvolvimento do porco.


O embrião esférico de porco é mantido no lugar enquanto uma pequena agulha é usada para injetar células-tronco pluripotentes humanas "intermediárias". O círculo verde determinava o ponto em que um feixe de laser "abriu espaço" no embrião para que as células pudessem ser devidamente injetadas. Repararam na semelhança do que tinha sido divulgado em junho do ano passado pela BBC?

"É como se as células humanas esttivessem entrando em uma autoestrada mais rápida do que a autoestrada normal. Se você tiver velocidades diferentes, você terá acidentes", continuou Izpisua Belmonte.


Os pesquisadores injetaram diversas formas diferentes de células-tronco humanas em embriões de porcos para ver quais poderiam sobreviver melhor. As células que sobreviveram por mais tempo e mostraram maior potencial para continuar a desenvolver foram células-tronco pluripotentes humanas "intermediárias". As células humanas sobreviveram e formaram um embrião, uma quimera de humano e porco. Os embriões foram implantados em porcas adultas, e foram deixados para que se desenvolvessem durante três a quatro semanas (cerca de 28 dias).

"Isso é tempo suficiente para que possamos tentar entender como as células humanas e do porco se misturaram desde o início sem levantar questões éticas sobre animais queiméricos adultos", disse Izpisua Belmonte.


Os embriões foram implantados em porcas adultas, e foram deixados para que se desenvolvessem durante três a quatro semanas. Vale lembrar que é perfeiramente normal que embriões de porcos tenha essa aparência com 28 dias de vida.

No entanto, mesmo utilizando as células estaminais humanas mais eficazes, o nível de contribuição para o embrião quimerizado não foi elevado. Izpisua Belmonte considerava isso uma boa notícia. Uma das maiores preocupações com a criação de quimeras entre humanos e animais é que a quimera poderia ser "muito humana". Conforme dissemos anteriormente, os pesquisadores não queriam que as células humanas contribuíssem para a formação do cérebro.


Ao menos nesse estudo, as células humanas não se tornaram precursores de células cerebrais, que podiam se desenvolver em relação ao sistema nervoso central. Pelo contrário, elas estavam se desenvolvendo em células musculares e precursores de outros órgãos.


Uma das maiores preocupações com a criação de quimeras entre humanos e animais é que a quimera poderia ser "muito humana". Conforme dissemos anteriormente, os pesquisadores não queriam que as células humanas contribuíssem para a formação do cérebro.

"Nesse ponto, queríamos saber se as células humanas podiam contribuir para resolver a questão. Agora que sabemos a resposta, nosso próximo desafio é melhorar a eficiência e guiar as células humanas para formar um órgão particular em porcos", disse Izpisua Belmonte.


Ainda de acordo com esse comunicado de imprensa, o estudo recebeu apoio da Fundação Séneca em Múrcia, na Espanha, da Universidade Católica Santo Antônio de Múrcia, da Fundação Dr. Pedro Guillen, da Fundação de Caridade G. Harold e Leila Y. Mathers, e da Fundação Moxie.


Não Entendeu Nada? Vamos Tentar Simplificar Toda Essa História Contando Aquilo que Geralmente Não Recebe Muito Destaque




Vamos começar com a definição de algumas coisas para vocês. A Quimera era um monstro da mitologia grega, celebrado o suficiente para tornar-se um termo geral para designar qualquer fantasia da imaginação - e para animais híbridos de todos os tipos na arquitetura. A criatura cuspia fogo, tinha juba e cabeça de leão, corpo de bode (sendo também mostrada frequentemente com a cabeça de bode) e cauda com cabeça de serpente. A vitória de Belerofonte sobre a Quimera é um exemplo da lenda, muito difundida, a partir do confronto do heroi e o dragão (que personifica o diabo). Na arte medieval, a Quimera representava as forças satânicas. Já alguns mitólogos interpretam sua forma tripla como a incorporação de diversas forças destruidoras da natureza, tais como as erupções vulcânicas e labaredas de gás.


A Quimera era um monstro da mitologia grega, celebrado o suficiente para tornar-se um termo geral para designar qualquer fantasia da imaginação - e para animais híbridos de todos os tipos na arquitetura. A criatura cuspia fogo, tinha juba e cabeça de leão, corpo de bode (sendo também mostrada frequentemente com a cabeça de bode) e cauda com cabeça de serpente

Entranto, para a ciência, uma quimera é um único organismo que consiste em células de dois ou mais indivíduos, ou seja, contém dois conjuntos de DNA, com o código para gerar dois organismos separados, em algum lugar dentro do mesmo. No caso das quimeras "humano-animal", realizadas na nova pesquisa, os embriões continham principalmente células animais, com um número relativamente pequeno de células humanas. Para criar os embriões, os pesquisadores injetaram células-tronco humanas em embriões de animais em estágio inicial de desenvolvimento.


O grande problema é que muitos estão falando, que esse embriões gerados "eram metade porco e metade humano", mas não é bem assim. De acordo com uma notícia publicada pela BBC, na primeira linha que fizeram muita questão de destacar, diga-se de passagem, foi mencionado que os embriões eram 0,001% humanos e o restante, ou seja, 99,999% era porcoAlém disso, o processo aparentava ser muito ineficiente. Vocês sabem qual a razão disso? Bem, dos 2.075 embriões implantados, apenas 186 continuaram a desenvolver até o estágio de 28 dias (agora imaginem quantos poderiam realmente sobreviver até 114 dias). De qualquer forma, ainda assim os pesquisadores do Instituto Salk para Estudos Biológicos estavam animados.


As células humanas iPS (em verde) contribuíram para o desenvolvimento do coração
de um embrião de porco de 4 semanas de idade.

"Essa é a primeira vez que as células humanas são vistas crescendo dentro de um grande animal", disse o professor Juan Carlos Izpisua Belmonte, em entrevista para o site da BBC News.


"Para aumentar a eficiência do processo, cerca de 0,1 a 1% de células humanas devem ser suficiente. Mesmo nessa fase inicial (28 dias), bilhões de células no embrião teriam milhões de células humanas, então o teste seria significativo e prático", disse Juan Wu, que como sabemos faz parte do mesmo instituto. Ainda assim, conforme vocês podem perceber, o resultado não seria metade humano e nem metade porco.

Ah, vocês lembram do biólogo Pablo Juan Ross, da Universidade da Califónia? Pois bem, ele também fez parte desse estudo, ou seja, o que foi divulgado no ano passado, foi quase uma prévia do que seria publicado esse ano.

Os pesquisadores também disseram que estavam pesquisando apenas em cima daquilo que atualmente é legal (no sentindo de permitido), mas eles estavam cientes da controvérsia que o assunto poderia gerar.


Os pesquisadores também disseram que estavam pesquisando apenas em cima daquilo que atualmente é legal (no sentindo de permitido), mas eles estavam cientes da controvérsia que o assunto poderia gerar.

"Estamos restringindo o desenvolvimento até cerca de um mês no caso dos porcos, e a razão para isso é que esse tempo é suficiente para entendermos como as células misturam, se diferenciam e se integram. Uma possibilidade é deixar esses animais nascerem, mas isso não é algo que devemos permitir que aconteça nesse momento. Nem tudo o que a ciência pode fazer, nós devemos fazer. Não estamos vivendo em um nicho de laboratório, vivemos com outras pessoas, sendo que a sociedade precisa decidir o que pode ser feito", disse Juan Carlos Izpisua Belmonte.


"Quando as pessoas ouvem a palavra quimera, sempre é associado com a mitologia grega, ou seja, sempre existe um medo associado. Porém, anjos são quimeras, e isso pode trazer uma imagem positiva. Esperamos ajudar em relação a escassez mundial de órgãos, não criar um monstro", disse Juan Wu.

Existiam, é claro, cientistas bem empolgados com toda essa história. Um deles era o professor Bruce Whitelaw, diretor interino do Instituto Roslin, da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, onde a ovelha "Dolly" foi clonada. Alguém lembra dessa simpática ovelhinha que já foi tema de muita discussão?


Existiam, é claro, cientistas bem empolgados com toda essa história. Um deles era o professor Bruce Whitelaw (na foto), diretor interino do Instituto Roslin, da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, onde a ovelha "Dolly" foi clonada

"Essa é uma publicação animadora. Demonstra claramente que as células estaminais humanas introduzidas no embrião de porco podem formar uma quimera humano-porco. Essa é a primeira publicação científica a alcançar esse resultado. Esse é o primeiro passo no desenvolvimento de animais quiméricos, e prepara o caminho para avanços significativos em nossa compreensão do desenvolvimento no embrião e sugestões para futuras aplicações de biotecnologia", disse Bruce Whitelaw.


O professor Robin Lovell-Badge, do Instituto Francis Crick, em Londres, na Inglaterra, também estava animado com o estudo, porém ressaltou que ainda estávamos longe de sabermos se o processo era realmente viável, e que seriam necessários maiores estudos nesse sentido.


O professor Robin Lovell-Badge (na foto), do Instituto Francis Crick, em Londres, na Inglaterra, também estava animado com o estudo, porém ressaltou que ainda estávamos longe de sabermos se o processo era realmente viável, e que seriam necessários maiores estudos nesse sentido.

Já para o Dr. David King, diretor do Human Genetics Alert (HGA), um grupo independente britânico de observação sobre questões genéticas, esses experimentos eram pertubadores.


"Na mitologia, as quimeras humano-animal eram monstros assustadores por boas razões. Não me lembro desses cientistas pedindo a opinião pública antes de prosseguir com essas experiências. Fico preocupado, que os órgãos ou tecidos humanos produzidos em suínos possam transportar vírus de suínos para a população humana", disse David King.


Já para o Dr. David King, diretor do Human Genetics Alert (HGA), um grupo britânico independente de observação
sobre questões genéticas, esses experimentos eram pertubadores.

"A preocupação em misturar espécies toca em algo profundo da psique humana e da nossa cultura, que é difícil de colocar em palavras. Não se trata de alguma 'sabedoria da natureza', mas da falta de sabedoria dos cientistas", completou.


Segundo um interessante artigo da Gretchen Vogel, que foi publicado no site da revista Science, além da aparente ineficiência do método utilizado pelo Instituto Salk, muitos dos embriões eram muito menores do que o normal, e pareciam crescer mais lentamente. Isso quer dizer que, apesar de soar promissor, até o presente momento as células humanas não se misturam tão facilmente com as de outros animais. A questão se tornava basicamente sobre o quanto de contribuição humana seria necessário nesses experimentos, e suas respectivas implicações. 


Um Outro Estudo Envolvendo Xenotransplante Foi Publicado na Revista Nature, na Quarta-Feira Passada (25)




Na última quarta-feira (25), em um estudo publicado na revista Nature, foi mostrado como órgãos poderiam ser cultivados em uma espécie para serem utilizados em outra. Ratos foram geneticamente modificados para que eles não pudessem produzir um pâncreas, o órgão crucial para controlar os níveis de açúcar no sangue. Células-tronco de camundongo foram injetados em embriões deficientes de ratos, que rapidamente aproveitaram da ausência genética do pâncreas, e estimularam o crescimento de um pâncreas de camundongo no lugar. Assim sendo, posteriormente, os pâncreas foram transplantados de volta para o tratamento de diabetes em camundongos doentes.

Segundo uma notícia publicada no site do jornal "The Washington Post", os ratos embrionários desenvolveram-se normalmente e nasceram saudáveis. Cada um tinha um pâncreas de tamanho normal de rato, porém composto de células de camundongo. A questão é que os pâncreas eram grandes demais para serem transplantados para camundongos pequenos, então os pesquisadores extraíram apenas as ilhotas de Langerhans (a região do pâncreas que produz hormônios, assim como a insulina) e implantaram nos camundongos que tinham sido induzidos a ter diabetes.


Uma quimera (à esquerda) foi criada a partir de um rato Wistar (ao centro) e um camundongo (à direita).
A quimera rato-camundongo foi gerada a por injeção de células iPS de camundongos em embriões de rato.

Uma vez que as células transplantadas foram cultivadas a partir de células-tronco retiradas de camundongos, os animais necessitaram apenas cinco dias de drogas imunossupressoras para evitar que seus corpos rejeitassem o novo tecido. Depois disso, eles foram capazes de viver normalmente com níveis saudáveis de glicose no sangue por mais de um ano, ou seja, metade de uma vida em termos humanos.


"O estudo mostrou que os transplantes de órgãos entre espécies não são apenas possíveis, mas podem ser realizados de forma eficaz e segura. Essa é uma forma de transplante que poderíamos fazer em clínicas com pacientes humanos algum dia", disse Hiromitsu Nakauchi, um pesquisador de células-tronco da Universidade de Stanford e da Universidade de Tóquio, que foi o autor principal desse estudo.


"O estudo mostrou que os transplantes de órgãos entre espécies não são apenas possíveis, mas podem ser realizados de forma eficaz e segura. Essa é uma forma de transplante que poderíamos fazer em clínicas com pacientes humanos algum dia", disse Hiromitsu Nakauchi (na foto)

Hiromitsu Nakauchi também vinha conduzindo experimentos envolvendo células-tronco humanas em embriões de ovinos, mas os resultados vinham sendo amplamente infrutíferos, principalmente pela grande distância evolutiva entre os seres humanos e animais como bovinos, suínos e ovinos.


Hiromitsu Nakauchi disse que ficou muito animado em ler o estudo publicado pelos pesquisadores do Instituto Salk para Estudos Biológicos, mas advertiu que ao ler o estudo, é possível notar que a contribuição das células humanas era muito limitada. Muito pequena, e apenas na fase embrionária precoce, por isso ainda não dava para ter certeza se realmente poderíamos fazer quimeras humanas. Resumindo? Mais uma vez era necessário cautela diante do que havia sido divulgado.


Comentários Finais




O problema da carência de órgãos para transplante ao redor do mundo é um problema crescente. Somente em nosso país, de acordo com a Agência Brasil, oficialmente cerca de 42.523 pessoas aguardavam na fila para transplante até 30 de junho do ano passado. Além da crise financeira que fez com que o número de transplantes diminuísse, uma vez que essa é uma modalidade assistencial cara, e de difícil absorção tecnológica, outro grande desafio do sistema era o de diagnóstico e a certificação em tempo hábil da morte encefálica, quando o coração continua batendo, mas o cérebro deixa de funcionar. Atualmente, 30% das pessoas com mortes encefálicas acabam tendo seus órgãos doados. Boa parte dos casos em que não há doação, deve-se à recusa familiar. Evidentemente, diante de um sistema de saúde caótico, que muitas vezes opera sem a menor capacidade operacional e técnica, a população precisa sentir muita clareza nas informações sobre doação de órgãos e diagnóstico da morte de entes queridos. Além disso, a família precisa ser respeitada na sua dor e ter privacidade no hospital. No entanto, quando se trata de transplante de órgãos, essa dor tem hora marcada pelo chamado tempo de isquemia, que nada mais é do que o tempo necessário e viável entre a retirada do órgão e o transplante, e que varia de órgão para órgão. Coração, pulmões, fígado e pâncreas só podem ser retirados antes da parada cardíaca. Já as córneas, por exemplo, podem ser retiradas até 6 horas após a parada cardíaca. Alguns órgãos, assim como o coração e os pulmões só duram de 4 a 6 horas fora do corpo, porém as córneas conseguem ser bem preservadas até 7 dias após a retirada das mesmas do corpo do doador. Além disso, estar em primeiro na fila não significa muita coisa, visto que critérios obedecem a condições médicas. São três fatores determinantes: compatibilidade dos grupos sanguíneos, tempo de espera e a gravidade da doença. E mesmo após a luta contra o tempo ser vencida, ainda temos um possível problema de rejeição do novo órgão por parte do corpo daquele que aguardou por tanto tempo, para ter uma nova oportunidade de seguir vivendo.

Evidentemente, soa um pouco cruel utilizar animais como receptáculos de órgãos com tecidos humanos, uma vez que isso acabaria gerando um novo nicho de mercado, uma fazenda de órgãos humanos. Assim sendo, começaria outra luta para isso não fosse banalizado, e obedecesse a uma série de critérios sanitários e epidemiológicos. De qualquer forma, não podemos ser hipócritas e não considerar isso uma opção viável, desde que haja inúmeros estudos sérios, e que sejam comprometidos com a ética e a biossegurança, visto que não podemos permitir que doenças suínas afetem os seres humanos. Além disso, acredito que os cientistas devam continuar investindo em outras técnicas, métodos e tecnologias para buscar alternativas para diminuir o sofrimento daqueles, que esperam por um transplante de órgãos. Infelizmente, ao longo do tempo, e ao escrever matérias ou notícias, que envolvam a ciência e a utilização de animais como cobaias tenho visto pessoas que repudiam casos assim, mas não hesitam em comer uma feijoada, cujo feijão foi previamente cozido na pressão com pés de porco, ou que adorem comer um pernil no Natal. Portanto, se os seres humanos matam para comer a carne de animais, e no caso do porco aproveitando praticamente quase todas as suas partes, porque não poderiam utilizar esses animais para salvar inúmeras vidas a partir de um único animal? Soa irônico e estranho pensar que comer é aceitável, mas salvar vidas não. Porém, além do debate ético, teríamos o debate financeiro, o religioso entre diversos outros. Um longo caminho essencial, necessário e benéfico, mas que acaba se tornando o calvário de inúmeras famílias.

Por outro lado, o xenotransplante tem um ponto fraco chamado "conscientização da população". Se cada um de nós fizéssemos a nossa parte na conscientização de nossos parentes e amigos, procurássemos criar campanhas em escolas, universidades, e em nossos próprios bairros, convidando os mesmos vereadores que votamos nas eleições passadas, médicos e autoridades da saúde pública para participar dessas campanhas para explicar a população a realidade sobre os transplantes de órgãos, provavelmente haveria pouquíssimo espaço para o xenotransplante. A grande verdade é que as pessoas têm medo que os órgãos de seus parentes sejam roubados, que tirem pedaços para vender no "mercado negro" e muitas vezes recusam a doação por estarem diante de um momento de muito sofrimento ao perder um ente querido ou não acreditarem que ele esteja realmente morto, porque ainda sentem seu coração bater. Apesar de ninguém gostar de pensar na morte, é necessário ter essa discussão antes que ela aconteça, porque uma única pessoa, mesmo que já não esteja nesse plano, pode salvar inúmeras vidas. Se você não fizer nada, e não tentar começar dentro da sua própria casa, métodos alternativos como o xenotransplante continuarão acontecendo. Ambos os caminhos são longos, tanto para que o xenotransplante seja possível e viável, quanto para conscientizar uma população que, em sua maioria, está fragilizada por diversos problemas sociais e econômicos. Uma verdadeira corrida contra o tempo, tanto para que aquele espera, quanto para aqueles que lutam diariamente para convecer outros a doarem.

Até a próxima, AssombradOs.

Criação/Tradução/Adatapção: Marco Faustino

Fontes:

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